quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Eu caminho olhando para cima, para que as lágrimas não caiam. Conto as estrelas no céu com olhos lacrimejantes, lembrando de quando a felicidade descansava acima de nós, e não além das nuvens. E agora eu percebo que estou sóbria, e reconheço as ruas pelas quais eu ando. Essas ruas me levam à sua casa. Não encontro um motivo para continuar caminhando, mas não consigo parar. Começo a marcar o caminho, como fizeram João e Maria, pois sei que voltarei sozinha. Por que eu não consigo ser mulher o suficiente para aceitar os meus erros, admití-los? Eu daria tudo para poder voltar no tempo e não causar a dor que eu te causei. É possível enxergar a luz da casa pela janela ainda aberta. Eu me sento na calçada em frente ao seu portão, e derramo todas as lágrimas que eu segurei pelo caminho. De repente, alguns passos atrás de mim e eu tento me recompor.
-Está tudo bem? - o simples som da sua voz me faz desenterrar todas as lembranças de nós dois, e eu seguro as lágrimas que afloram em meus olhos.
-Não - eu respondi - acho que te devo um pedido de desculpas.
Ele solta um riso baixo, e logo volta à seriedade de sempre.
-Você já se desculpou.
-Mas aquela não valeu, eu estava bêbada, agora estou sóbria, por incrível que pareça. - tento soltar um sorriso espontâneo, mas minha boca se retorce e as lágrimas finalmente rolam de meus olhos. Ele fica um pouco hesitante no início, mas logo me toma em seus braços e sussurra em meu ouvido:
- Está tudo bem, está desculpada.
Levanto o rosto para olhar em seus olhos, ele enxuga as minhas lágrimas, o seu toque faz o meu coração palpitar mais forte, ele se aproxima de mim, consigo sentir sua respiração calma, e seus lábios buscam os meus. Eu desejei que esse momento durasse para sempre.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Oh, chuva


Sem pedir licença, chega e quando está furiosa, destroi tudo o que estiver em seu caminho. Depois que passa, só nos resta limpar a sujeira, varrer os traumas. Mas acalme-se, não há motivos para ficar zangada. Aceite o meu colo e descanse sua cabeça ali, enquanto eu acaricio o seu cabelo e empresto meus ouvidos pelo tempo que achar necessário. E se me permite, eu lhe conto o quanto a admiro, e o quão bem eu me sinto quando chega mansa, calma, dando um novo ar ao ambiente. Suas gotas brilham como diamantes e caem do céu, refrescando a minha pele e refletindo as minhas melhores recordações, mas é você a minha mais doce recordação.

Um quase acerto na loteria

Você está em seu canto de sempre, com os seus amigos de sempre. Tão fechada em seu mundo, mal percebe o que acontece à sua volta. Se sentindo vazia por dentro, e sedenta por emoção, larga o medo e parte para o desconhecido. Conhece pessoas novas, amigos de amigos, e assim vai.

Um garoto lhe chama a atenção. E aí você faz a sua aposta, um valor baixo, para começar. Você ainda não se sente confiante, mas logo percebe que há muitas coisas em comum entre vocês. Diante disso, aumenta o valor da aposta.

Os dias passam, e vocês costumam ir ao cinema juntos e nunca ficam entediados de conversar. Você já não consegue parar de pensar nele, já está apostando tudo o que pode. Combinaram de se encontrar novamente no dia seguinte. Sente um frio na barriga, será que seus números serão sorteados? Agora sim, está confiante, e dorme acreditando que no outro dia acordará milhonária. Porém, a noite é turbulenta, cheia de pesadelos, chamados sem respostas.

Chega o tão esperado dia. Ele começa uma conversa estranha, com tom de despedida e o pesadelo se torna real. Você o vê partir, e não pode fazer nada para que ele mude de ideia. Por alguns números, você poderia ter se tornado milhonária, mas não foi dessa vez. Mas não fique triste, e aprenda algumas coisas com essa aposta. Você errou por pouco, mas perdeu tudo o que tinha. Da próxima vez, seja menos impulsiva e vá aos poucos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Orvalho à espera da manhã


Tudo o que eu preciso é de uma luz. Mas a tal luz não vem, e eu continuo na escuridão. Meus fones de ouvido estão no volume máximo, tentando calar os gritos do silêncio. Mantenho os olhos fechados, impedindo-os de se adaptarem à escuridão. Tateando meu braço, e depois o corpo inteiro, não conseguia reconhecê-lo como meu. E mesmo de olhos fechados, as imagens aparecem. Eu sinto o calor do fogo, mas não é este o calor que eu preciso para me aquecer. Eu encaro aquele fogo, que agora queima as minhas córneas. A ardência é insuportável e meus olhos derramam lágrimas em uma vã tentativa de amenizar o calor. Percebo que estou gritando, e abro os olhos, como se estivesse acordando de um pesadelo. Está tudo girando ao meu redor, respiro com dificuldade e me sinto exausta. Consigo caminhar até a janela, de onde eu vejo a luz fraca dos primeiros raios de sol. O orvalho vai embora, mas eu continuo aqui esperando o meu sol.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ばあちゃん

Eu dormia tranquilamente quando algo molhado me acordou. Lágrimas. Lembrei-me de meu sonho, eu sonhei contigo. É terrivelmente doloroso saber que nada que eu fizer ou disser te trará de volta. Ou que as lágrimas que eu chorar serão em vão, pois tu não estarás lá para enxugá-las.

Talvez se surpreenda, mas eu não senti alívio algum quando te vi partir. Pedir desculpas nunca reparam os erros cometidos, as feridas não se cicatrizam com um simples "me desculpe". Mas se eu pudesse, hoje eu não faria outra coisa além de repetir essas palavras para ti.

Eu choro sozinha, quando não há ninguém por perto, e rezo por ti. Agora é tarde, eu sei, não posso mudar o que aconteceu. Culpar-me é a única coisa que me faz sentir um pouco melhor. Saber que partiu sem sentir aquilo que sentiu durante a tua vida inteira, sem sentir dor, é apenas um sonsolo.

Se eu soubesse o que o futuro me aguarda, aproveitaria melhor o meu tempo. Eu tive doze anos para aproveitar ao teu lado. Olhando para trás, me arrependo de não ter usado esse tempo para dizer uma frase simples, mas que é completa: eu te amo vó, e eu sinto muita saudade.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Torres

E lá no alto do Morro do Farol, eu me sentei em uma daqueles bancos bizarros de madeira e fiquei a observar a cidade e a praia. Lá do alto olhava tudo ao meu redor, mas não enxergava. Estava completamente cega, a solidão era tudo o que eu via. Ou tudo o que eu me permitia ver. Afinal, a felicidade alheia sempre fora algo que me incomodara. E então meus olhos pousaram nas rochas, e essas sim eu enxerguei. Engraçado, cheguei a me identificar com elas. As rochas estavam ali, onde sempre estiveram. E então chega o mar e bate violentamente contra elas. Tamanha é a força que ele usa, que com o tempo elas desgastam. É como se desistissem de ficar em pé, como se estivessem cansadas de ver o mar sempre violento, irritado. E então elas viram singelos grãos de areia. E era exatamente assim que eu me sentia. Um grão de areia junto com vários outros incontáveis grãos, esquecido entre a multidão.